Qual a coisa mais difícil que você já precisou fazer?
Há alguns anos eu ficava me perguntando “Qual a coisa mais difícil que vou precisar fazer?”, algumas vezes eu achava que sair da casa de meus pais, ir para um outro lugar onde eu não conhecia ninguém e ia precisar criar algum tipo de laço/amizade com alguém que ia me facilitar iniciar uma vida nesse novo lugar (por criar “raízes”, engraçado que sempre achei isso), outra vez me peguei pensando que seria no casamento, no momento onde eu passasse a morar com outra pessoa, precisar me adaptar aos costumes e traquejos da minha esposa seria a coisa mais difícil que eu ia precisar fazer, la pelas tantas imaginei que seria criar nosso filho, que ainda não nasceu, nesse mundo louco onde o individualismo impera e os valores familiares estão se perdendo (na imensa maioria das famílias) e hoje eu vejo que nada disso, ao menos por enquanto, é a coisa mais difícil que eu precisei na vida.
Entendo perfeitamente que cada umas das coisas que citei acima foi se tornando parte de mim, a troca de cidade, início na faculdade, conhecer novas pessoas, criar laços de amizade e por aí vai. A cada nova “etapa” que ia passando na vida, fazia com que a etapa anterior deixasse de ser a “mais difícil” e como ela já havia sido superada a próxima coisa a se fazer sempre ganhava esse status.
Hoje me pego aqui, numa madrugada de terça feira, 06 dias sem dormir direito, porque algo que eu sempre soube que chegaria o dia ganhou um start no cronômetro regressivo em novembro/dezembro do ano passado (2019). Descobrimos o câncer de minha mãe e a pedido dela não comentamos, compartilhamos e nem divulgamos tal “notícia” para quem quer que seja. Nenhum parente, irmão dela ou primo ficou sabendo (ao menos por mim) o que ela tinha e esse era o desejo dela. Assim foi feito até que chegou o momento que não tinha mais como esconder.
Em uma de muitas de nossas conversas ela me contava que na juventude ela precisou sair do interior da Bahia (Ipiaú) para fazer um tratamento de uma doença em São Paulo – SP, naquela época não sei como ela foi pra lá (avião ou ônibus) mas ela me contava que foi muito sofrido na “cidade grande” e que o médico que a tratou deu a ela mais, no máximo, 1 ano de vida. Se passaram mais de 40 anos e eis que aquele problema que ela dizia ter na juventude retorna e vem de um jeito avassalador devastando tudo o que eu mais amava e cuidava.
Não sei se Deus escreveu no script de minha vida mas, em novembro de 2019, antes de descobri a doença, acabamos (minha esposa e Eu) fazendo uma viagem pra São Paulo – SP, num feriado prolongado, me pego lembrando agora que passei por inúmeros lugares, tirei fotos e mandava pra ela, a cada foto ela escrevia o lugar onde estava, e quando ligava a noite ela me contava o que ela viveu naquele lugar, se tinha algum parente que morava próximo e contava alguma estória. Hoje, nesse momento, fiz a conexão daquela viagem em minha mente, e de repente Deus (para os que acreditam ou não) meio que me fez ajudar ela a reviver aquilo, ainda não consegui definir se foi algo bom ou não.
Me lembro de quando eu fui pra Salvador, em Agosto de 2002, nos primeiros 15 dias que fui pra la ela ficou muito triste, um tempo depois soube que ela ficava deitava na cama chorando porque eu tinha ido estudar pra ser alguém, ter uma profissão e um trabalho digno que conseguisse me gerar o sustento com alguma qualidade. Como o hábito criado até a data de minha saída, todos os dias desde quando coloquei os pés em Salvador, eu conversava com ela, por telefone ( ainda não existia whatsapp e internet era coisa de rico) e esse habito se manteve até 2 semanas atrás, estamos em maio/2020 quando eu percebi que ela não estava mais tão apegada ao telefone e não queria mais fazer as videoconferência comigo. Nesse meio tempo de 2002 pra cá, em inúmeras vezes meu coração apertava de saudade, eu esperava chegar a sexta feira, pegava um ônibus e vinha pra casa, dar uma abraço, conversar um pouco mais, deitar ao lado dela na cama, horas a fil de conversas sobre diversos assuntos. Levava ela onde queria, na casa do meu avô, em algum lugar que quisesse ir, na feira aos sábados pra ela não pegar peso dentre outras coisas que eu fazia. Numas das fases mais complexas da minha vida, quando tive depressão ela estava la, me ajudando, cuidando de mim, me fortalecendo conversando bastante comigo. Quando eu quis largar tudo, desistir de estudar, voltar pra casa e trabalhar ou sair do país para trabalhar ela conversou muito comigo, e naquele dia eu entendi que não era so eu que sentia falta de nossas conversas deitados na cama. Perguntei a ela tempos depois do porquê ela não ter me dito que estava sofrendo daquele jeito, eu teria ido ficar com ela nos finais de semana seguintes e ela me respondeu exatamente isso “não te falei porque eu sabia que se dissesse você largaria a faculdade e voltaria pra casa e você precisa estudar, filho a gente cria pra vida pra crescer e voar”. Ouvi muitas vezes isso.
Então agora eu descobri qual a próxima “coisa mais difícil” que vou ter que fazer na vida e essa “coisa está a cada dia mais perto”, me assusta e deixa inquieto, tira meu sono e minha tranquilidade. Me lembro que há algumas semanas, eu vim visita-la e em um dos momentos de nossas conversas ela puxou o assunto da “coisa mais difícil”, falou algumas coisas sobre como ia ser difícil e eu pedi pra que esse assunto não fosse tratado assim. Que era um tema realmente muito difícil pra mim, que eu sabia que esse dia chegaria, mas que eu não queria pensar naquilo. Contei pra ela que há alguns meses, eu procurei ajuda profissional para tentar entender porque eu tinha tanta dificuldade com “perdas” de uma forma geral e lembro que em uma das sessões minha terapeuta e Eu tocamos no assunto “morte”, acho que em 50 minutos de sessão eu nunca vivi algo tão intenso, sensações novas, lembranças entes queridos que havia nos deixado vieram a minha mente e foi algo tão intenso e forte que fiquei semanas pensando naquela sessão. Hoje entendo que foi uma das melhores coisas que eu já fiz por mim, ir tentar entender essa dificuldade e passar a trabalhar isso em minha mente, para de alguma forma estar um pouco mais preparado para quando essa época chegasse. Vejo que foi importante, sei que nunca estamos e nem estaremos preparados mas vejo também que aquele movimento de tentar entender e de alguma forma trabalhar esse tema “morte” em minha cabeça me ajudou muito a entender e porque não (aceitar) que algumas coisas são inevitáveis, não há como controlar nem como impor a nossa vontade. Entendo que está sendo muito difícil, ver minha mãe daquele jeito, sem conseguir fazer muita coisa (um dos maiores medos dela era de ficar doente de um jeito que ficasse dependente de alguém e que o desejo dela era partir rápido, sem dar trabalho pros filhos nem marido).
Há algumas semanas foi o dia das mães, Ipiaú estava cheia de casos de Covid-19, em uma das nossas conversas comentei que estava ansioso pra chegar logo o sábado, que eu pegaria o carro e ia pra la dar um abraço nela e queria conversar sobre a chegada de Bernado, meu filho, mas ela não aceitou, me fez prometer que eu não iria, que não colocaria minha esposa (grávida) no meio de tantos casos do vírus e que seria uma irresponsabilidade muito grande se eu fizesse isso, ficou nervosa, agitada como eu não via ha muito tempo, prometi a ela que não iria mas ela teria que fazer a conferencia comigo 2 vezes naquele dia, uma pela manhã e outra a noite, e assim foi feito o novo trato (a gente fazia muitos tratos mesmo, acordávamos e eu ou ela tínhamos que cumprir e um ficava cobrando o outro) não fui pro 'dia das mães' (ela tinha me dito que todo o dia era o dia das mães e que quando a pandemia passasse eu ia la e dava uma braço nela).
Me lembro que meu pai me ligou num sábado pela manhã dizendo que ela tinha piorado e que eu deveria ir pra la pra me despedir, acho que nunca tive uma crise de desespero parecida com aquela, choro, raiva, medo, mil sensações ao mesmo tempo. Respirei fundo, tomei uma água, tomei um banho para me acalmar um pouco e deitei na cama (havia decidido que ia pegar o carro e ir dirigindo pra lá), não sei se adormeci ou se estava num estágio intermediário entre dormindo e acordando mas sei que comecei a ouvir a voz dela no meu ouvido, falando pra eu me acalmar, que ia ficar tudo bem, que ela sabia que ia ser difícil e que eu ia sentir muita a falta dela mas que ela precisaria fazer alguns pedidos e a cada um destes estou cumprindo. No momento da escrita desse texto, estou cumprindo um desses pedidos, estou na casa do meu irmão mais velho pra apoia-lo no que ele precisar aqui. Daqui a pouco o dia vai amanhecer e eu irei pra la pra casa ver como ela está, sentar-me mais uma vez ao seu lado e falar com ela mais um pouco.
A “coisa mais difícil que vou fazer na vida” na verdade já estou fazendo, me despedir de minha mãe, sentar-me ao lado dela e apenas eu falar, não ter mais conselhos nem chamadas, não mandar mais fotos nem vídeos, não mostrar o dia de sol lindo na praia essas coisas. Me acostumar com essa nova ideia que eu achei estar um pouco mais preparado, e realmente estou me saindo muito bem nessa questão, conseguindo fazer as coisas que havia acordado que faria, ainda faltam tantas outras coisas mas isso a gente deixa pra depois, vamos fazendo uma coisa de cada vez, vivendo uma experiência por vês e tentando se manter de pé, com a ajuda de Deus e o apoio dos familiares / amigos.